sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O mundo dos bonecos de papel (fragmentos)

Andrei Moreira

"Aquele era um universo diferente, o universo dos bonecos de papel, personagens de uma história em quadrinhos, idealizados pelas mãos operosas do Grande Cartunista do universo em quadrinhos. Um mundo de histórias, desejos, fantasias e... papeis! Diferentes, variados, complementares.

Eram bonecos feitos de um papel especial, pintados de duas cores específicas, embora não limitantes: o azul e o vermelho. Dessa forma se distinguiam, pela coloração exterior, sem maiores preocupações com o conteúdo interno. 

(...) e lá os bonecos nasciam assim: já adultos, desenvolvidos, embrulhados em uma caixa especial, pequenina, e iam se desenrolando aos poucos, à medida que o embrulho limitante lhes permitia maior movimentação. Já vinham completos, individuais, particulares e... pintados. A maior euforia daquele povo era acompanhar o desenrolar dos bonecos - e perceber qual seria a sua cor, pois, quando ainda dobrados, não se podia perceber com nitidez. As cores se confundiam.

Belo dia, agitação anormal na cidade. É que enfim os novos bonequinhos de papel haviam se desenrolado e atingido o estado ereto. Mas, ao invés de causar alegria nos que os rodeavam, causaram foi espanto. Não vinham pintados como de costume. Não eram azuis nem vermelhos. Eram coloridos. Uma mistura das duas cores com outras desconhecidas. 

As reações foram as mais variadas possíveis. Alguns ficaram paralisados. Outros correram para espalhar a notícia; outros mais fugiram apressados... alguns riam sem parar... houve aqueles que logo quiseram correr com os bonecos coloridos para a fábrica de tintas vermelhas e azuis e pintá-los artificialmente.

haviam pintado alguns quando foram impedidos de continuar, por um grupo que não temia a percepção e a convivência com as diferenças, que os coloridos recém-chegados representavam. Até gostavam.

Os bonecos mais amadurecidos, impedindo que se continuasse aquela caracterização exterior que descaracterizava o interior, levaram os jovens coloridos para fora da cidade por um tempo, até que tudo se acalmasse...

Com isso, debates e questionamentos coletivos foram promovidos em toda a cidade... e descobriram que os bonecos mais agressivos não aceitavam as duas cores juntas em um mesmo boneco...

Outros bonecos, mais assustados, nem tocaram no assunto. Era como se nada tivesse acontecendo. Alienaram-se, retiraram-se da realidade para viver fantasias variadas.

Até que um deles, atrevido, trouxe de volta os jovens coloridos, dando-lhes liberdade para fazerem o que desejassem, para serem eles mesmos naquele meio social. O nome desse boneco era Amor-Próprio. Permitiu-lhes ação. 

O jovem atrevido, Amor-Próprio, dando a todos o seu testemhunho de aceitação, chamava a atenção do velhos bonecos de papel para uma realidade nunca antes percebida: a da dupla coloração.

Ninguém entendeu, mas o jovem explicou: não se trata da existência de bonecos azuis e bonecos vermelhos. Falo da dupla coloração de cada um de nós. Ou vocês nunca se perceberam devidamente no espelho?

...temos nos dito vermelhos ou azuis pela coloração que trazemos na frente, em evidência, mas que possuímos a cor oposta, que não pensamos possuir, nas costas, onde os olhos não alcançam com facilidade... observem a vocês mesmos com mais autenticidade!!

E todos se puseram a olhar em volta, a perceber no outro a realidade que Amor-Próprio dizia. Em seguida, faziam a mesma constatação em si mesmos, ficando surpresos ao notar o que sempre existira, e nunca havia sido percebido.

... Ampliava-se ali a consciência dos bonecos...