quinta-feira, 12 de julho de 2012

ECONOMIA E SOCIEDADE, DE MAX WEBER


AÇÕES E RELAÇÕES SOCIAIS


Max Weber, no texto “Conceitos Sociológicos Fundamentais”, define o que vem a ser Sociologia segundo o seu pensamento

Sociologia (no sentido aqui entendido desta palavra empregada com tantos significados diversos) significa: uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explica-la causalmente em seu curso em seus efeitos. Por “ação” entende-se, neste caso, um comportamento humano (tanto faz tratar-se de um fazer interno ou externo, de omitir ou de permitir) sempre que e na medida em que o agente ou os agentes o relacionem com um sentido subjetivo. Ação “social”, por sua vez, significa uma ação que, quanto a seu sentido visado pelo agente ou s agentes, se refere ao comportamento de outros, orientando-se por este em seu curso.                 ( WEBER, 1994, p.03)

Com isto quer dizer que o papel da sociologia é compreender como agem as pessoas no meio social, interpretando cada ação enquanto uma intenção com finalidade determinada no meio. Nesta linha de raciocínio, define ação social como uma atitude em relação ao outro, visando provocar ações e reações neste. Sempre que uma ação tiver como objetivo a reação do outro, teremos uma ação social. Para diferenciar Weber exemplifica

Nem todo tipo de ação- também de ação externa- é “ação social” no sentido aqui adotado. A ação externa, por exemplo, não o é, quando se orienta exclusivamente pela expectativa de determinado comportamento de objetos materiais. O comportamento interno só é ação social quando se orienta pela ação de outros. Não o é, por exemplo, o comportamento religioso, quando nada mais é do que contemplação, oração solitária etc. a atividade econômica (de um individuo) só o é na medida em que também leva em consideração o comportamento de terceiros. (1994, p.14).


A metodologia de analise dos comportamentos/ ações sociais proposta por Weber se baseia em quatro pontos fundamentais, chamados “tipos puros”. Trata-se das motivações que levam um ser a agir no contexto social. Os quatro tipos puros representam um ponto de apoio a partir do qual todos os comportamentos são avaliados. Esses quatro tipos de motivações são: Racional com relação a fins; racional referente a valores; afetiva, e tradicional. O primeiro tipo se refere às ações em que o agente projeta racionalmente qual o seu objetivo e arquiteta os meios para atingi-los (racional referente a fins). O segundo tipo, racional referente a valores, ocorre quando a motivação para as ações se baseiam em princípios éticos e morais do agente. Ele age racionalmente, mas movido por valores subjetivos, íntimos. O tipo afetivo não é considerado racional por Weber, é uma motivação emocional, explosiva; e o tipo tradicional é interpretado como uma imitação de atitudes estabelecidas no meio social. Também é uma prática irracional. As pessoas a repetem sem questiona-la, apenas agem conforme recebeu esta ou aquela prática como herança de seus antepassados. (1994, p.15).

Apesar de os quatro tipos puros serem uma referencia para a análise e interpretação das ações sociais, Weber diz que as atitudes das pessoas costumam ser movidas por combinações desses tipos puros. É o olhar do Cientista Social que vai diferenciar qual o tipo de motivação está conduzindo esta ou aquela atitude. (1994, p. 16)
A noção de relação social surge a partir do momento em que um indivíduo age visando provocar reação em outro e de fato a provoca, ou seja, trata-se de uma reciprocidade de atitudes. Se não acontecer a reciprocidade, seja ela a favor ou contra a ação do primeiro, não houve relação social. A ação inicial do sujeito 1 ganha um sentido social quando ocorre a reciprocidade, a resposta do sujeito 2 àquela iniciativa de 1.

Por relação social entendemos o comportamento reciprocamente referido quanto a seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta por essa referencia. A relação social consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmente numa forma vindicável (pelo sentido), não importando, por enquanto, em que se baseia essa probabilidade. (WEBER, 1994, p. 16).

Definidos os quatro tipos puros de analise das ações e definido o conceito de relação social, Max Weber faz uma densa descrição de algumas relações sociais, demonstrando qual tipo de motivação as conduz.


Uma relação social denomina-se luta quando as ações se orientam pelo propósito de impor a própria vontade contra a resistência do ou dos parceiros. Denominamos “pacíficos” aqueles meios de luta que não consistem em violência física efetiva. A luta pacifica é “concorrência” quando se trata de pretensão formalmente pacifica de obter para si o poder de disposição sobre oportunidades desejadas também por outras pessoas. Há “concorrência regulada”, na medida em que esta, em seus fins e meios, se orienta por uma ordem. À luta (latente) pela existência, isto é, pelas possibilidades de viver ou de sobreviver, que se dá entre indivíduos ou tipos humanos sem que haja intenções dirigidas contra outros, denominamos “seleção”“ seleção social” quando se trata das possibilidades que pessoas concretas têm na vida; “seleção biológica” quando se trata das possibilidades de sobrevivência do patrimônio genético. (1994, p. 23).

Uma relação social denomina-se “relação comunitária” quando e na medida em que a atitude na ação social- no caso particular ou em media ou no tipo puro- repousa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencer             (afetiva ou tradicionalmente) ao mesmo grupo.

Uma relação social denomina-se associativa quando e na medida em que a atitude na ação repousa num ajuste ou numa união de interesses racionalmente motivados (com referencia a valores ou fins). A relação associativa, como caso típico, pode repousar especialmente (mas não unicamente) num acordo racional, por declaração reciproca. Então a ação correspondente, quando é racional, está orientada: a) de maneira racional referente a valores, pela crença no compromisso próprio; b) de maneira racional referente a fins pela expectativa de lealdade da outra parte. (1994, p. 25).

Uma relação social (tanto faz se comunitária ou associativa) será designada aberta ou fechada para fora, quando e na medida em que a participação naquela ação reciproca, que a constitui segundo o conteúdo de seu sentido, não é negada, por sua ordem vigente, a ninguém que efetivamente esteja em condições e disposto a tomar parte nela. Ao contrario, é chamada fechada para fora quando e na medida em que o conteúdo de seu sentido ou sua ordem vigente exclui, limita ou liga a participação a determinadas condições. (1994, p.27).

Chamamos “associação” uma relação social fechada para fora ou cujo regulamento limita a participação quando a observação de sua ordem está garantida pelo comportamento de determinadas pessoas, destinado particularmente a esse propósito: de um dirigente e, eventualmente, um quadro administrativo que, dado o caso, tem também, em condições normais, o poder de representação. (1994, p.30).

Denominamos ordem administrativa uma ordem que regula a ação associativa. Àquela que regula outras ações sociais, garantindo as agentes as possibilidades que provêm dessa regulação, denominamos “ordem reguladora”. Uma associação orientada unicamente por ordens do primeiro tipo denomina-se “associação administrativa”; quando se orienta somente pelas ordens do último tipo é uma associação reguladora. (1994, p.32).

Denominamos empresa uma ação continua que pregue determinados fins, e associação de empresa uma relação associativa cujo quadro administrativo age continuamente com vista a determinados fins.

Denominamos união uma associação baseada num acordo e cuja ordem estatuída só pretende vigência para os membros que pessoalmente se associaram.

Denominamos instituição uma associação cuja ordem estatuída se impõe, com (relativa) eficácia, a toda ação com determinadas características que tenha lugar dentro de determinado âmbito de vigência. (1994, p.32).

 Poder significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade.

Dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo, entre determinadas pessoas indicáveis; disciplina é a probabilidade de encontrar obediência pronta, automática e esquemática a uma ordem, entre uma pluralidade indicável de pessoas, em virtude de atividades treinadas. (1994, p. 33).

A uma associação de dominação denominamos associação política, quando e na medida em que sua subsistência e a vigência de suas ordens, dentro de determinado território geográfico, estejam garantidas de como continuo mediante ameaça e a aplicação de coação física por parte do quadro administrativo. Uma empresa com caráter de instituição política denominamos Estado, quando e na medida em que seu quadro administrativo reivindica com êxito o monopólio legitimo da coação física para realizar as ordens vigentes. (1994, p. 34).

Concluindo podemos dizer que relações sociais são, em Weber, o conjunto de ações sociais direcionadas a modificar o comportamento do outro. Essas relações se estabelecem de diversas maneiras, movidas por diferentes intencionalidades, e são identificáveis mediante modelos básicos que o autor chamou de tipos puros. O papel da ciência social, segundo este autor, é explicar a realidade a partir de cada expressão que ela apresenta, questionando ou observando a forma como as pessoas se expressam em cada contexto.


REFERÊNCIA  


WEBER, Max. Conceitos sociológicos fundamentais. In:___. Economia e Sociedade- Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Trad. Barbosa, Regis; Barbosa, Karen Elsabe. 3. ed. v. 1. Brasília: editora UNB, 1994.

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